Vale do Catimbau: Raízes inicia projeto para fortalecer o turismo sustentável e a economia criativa com a comunidade

Como uma comunidade pode conduzir o desenvolvimento do turismo e da economia criativa  no lugar onde vive? No Vale do Catimbau, em Pernambuco, essa pergunta acompanha o trabalho que iniciamos em agosto, entre conversas com quem recebe os visitantes e encontros com quem guarda os saberes que fazem daquele território um destino tão singular.

Ali estão o Parque Nacional do Catimbau e seus sítios arqueológicos, artesãos que transformam madeira em arte, as experiências do povo Kapinawá e do Quilombo Mundo Novo entre várias riquezas. Com o crescimento da visitação, especialmente após a pandemia, aumenta também a necessidade de organizar a atividade para que as pessoas que vivem na região tenham condições de serem protagonistas do seu desenvolvimento e  participar dos benefícios gerados por um turismo mais sustentável.

É nesse contexto que a Raízes inicia o projeto Criação e Estruturação da Rede de Experiências Turísticas Criativas do Vale do Catimbau, numa iniciativa do Sebrae Nacional em conjunto com o Sebrae Pernambuco. O trabalho busca aproximar os empreendedores e organizações locais, apoiando a construção de uma rede gerida pela própria comunidade.

“É essa comunidade que precisa ser instrumentalizada para definir estratégias de um desenvolvimento que seja um desenvolvimento positivo, com transformações reais na vida das pessoas que moram ali”, explica Jussara Rocha, diretora de projetos da Raízes.

O Sebrae já atua há cerca de 20 anos na região com fomento ao turismo e a cultura empreendedora, e neste momento, seu apoio ao território é ampliado contemplando tanto a estruturação da Rede e o fortalecimento das cadeias produtivas do turismo e da economia criativa. À frente do trabalho com a Rede, queremos contribuir para que os grupos locais possam planejar o crescimento do turismo a partir do que conhecem, do que precisam e do que desejam para o lugar onde vivem.

Quem faz o turismo no Vale do Catimbau e o que essas pessoas têm a nos dizer?

O Parque Nacional do Catimbau abrange Buíque, Ibimirim e Tupanatinga, com a maior parte das ações deste projeto concentrada em Buíque. Nesse território envolvido pelo bioma da Caatinga, a atividade turística envolve desde pousadas e restaurantes, os serviços de guias, condutores e profissionais do transporte, além de pessoas cujos ofícios já fazem parte da experiência de conhecer a região.

É o caso dos artesãos, dos lojistas que comercializam produtos locais e das mulheres que trabalham com o processamento do coco ouricuri. No Quilombo Mundo Novo, o turismo de base comunitária já aproxima visitantes da história e da culinária da comunidade, com apresentações de samba de coco conduzidas pelas mulheres. Entre os Kapinawá, há aldeias que também recebem turistas para compartilhar vivências.

Dedicamos os primeiros meses do projeto a compreender como aproximar essas iniciativas respeitando suas formas de organização, e o que cada grupo precisa para participar de uma rede. O mapeamento, iniciado em agosto e previsto para terminar em outubro, considera as atividades de cada grupo e as relações que existem entre eles, e a observação das dinamicas relacionais entre os atores do turismo e da economia criativa no território.

“Estamos agora entendendo quem são as pessoas, como elas trabalham, o que elas fazem, quais são os saberes, quais são os ofícios”, conta Jussara. As conversas também procuram identificar as necessidades dos empreendedores e aquilo que reconhecem como diferencial em seu trabalho.

Na próxima etapa, os encontros setoriais vão contar com metodologias como a cartografia afetiva e biografia social, voltados ao conhecimento da história dos grupos e os significados que atribuem ao território. 

Como essa escuta se transforma em uma rede com autonomia?

O projeto tem seis etapas que serão realizadas em 24 meses.

Após a etapa de  mapeamento será realizada a primeira Jornada de Inspiração do Território Catimbau Turístico e Criativo, onde além de convidados inspiradores vai ser feita a  devolutiva do processo inicial, abrindo uma conversa com a comunidade sobre o que foi identificado e os próximos passos da Rede.

O percurso inclui ainda a Trilha de Conhecimentos,  o desenvolvimento de produtos, roteiros e experiências, mentorias de fortalecimento de negócios turísticos e criativos  e ações relacionadas aos mercados nacional e internacional. Durante todo o desenvolvimento do Projeto, trabalharemos na estruturação da rede e na construção dos acordos que vão orientar seu funcionamento e a sua governança.. O projeto também prevê a aplicação integral do Re.clima e ações do Dona do Meu Fluxo, além da possibilidade de incorporar o Entre Elas metodologias próprias da Raízes.. 

Para Jussara, a autonomia está entre os principais resultados esperados: “Onde as pessoas se sintam exatamente as guardiãs desse território e saibam como lidar com sua ampla rede de parceiros, que são tanto regionais quanto nacionais e até internacionais, construindo seu futuro com pertencimento e ação coletiva”.

É um trabalho que pede tempo de convivência e disposição para negociar interesses diferentes, com atenção às condições de participação de cada grupo. Nossa contribuição reúne a experiência técnica da Raízes e as metodologias que desenvolvemos e aplicamos ao longo de 20 anos, em diálogo com o conhecimento de quem vive no Vale do Catimbau.

Como resume Jussara, é um projeto “feito para o território, no território, com as pessoas do território”. A rede começa a se formar nessas conversas, e seu futuro depende de que as pessoas encontrem nela espaço para suas propostas e condições para decidir, juntas, como querem receber visitantes e cuidar do lugar onde vivem.