
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30) chegou ao fim após ocupar Belém do Pará de 10 a 21 de novembro. Um marco para o mundo, para o Brasil e, especialmente, para a Amazônia brasileira. Pela primeira vez, o coração da maior floresta tropical do planeta recebeu os debates climáticos mais importantes do mundo. Estar ali, em diálogo direto com comunidades, organizações, governos e empresas, não foi apenas simbólico, foi urgente.
Para a Raízes Desenvolvimento Sustentável, participar da COP30 em diferentes agendas foi uma oportunidade de reforçar algo que já move o nosso trabalho há quase duas décadas: soluções climáticas precisam nascer do território e reconhecer quem cuida da floresta todos os dias.
Ao longo da conferência, parte da equipe da Raízes (as diretoras Mariana Madureira e Jussara Rocha, além da especialista em projetos sociais, Tauana Costa) esteve em encontros que colocaram o turismo de base comunitária, a justiça climática e a bioeconomia no centro das discussões. Mais do que registrar falas, este texto busca refletir sobre aquilo que permanece, os legados desta edição para o nosso trabalho — porque grandes eventos terminam, mas os aprendizados seguem abrindo caminhos.
1 – Justiça climática começa reconhecendo quem já vive os impactos todos os dias
No encontro Papo de Responsa Especial COP30: Justiça Climática com Empreendedores Socioambientais, promovido no Espaço Folha, um ponto emergiu com força: as populações ribeirinhas e amazônicas já sentem a crise climática de forma desproporcional. Mariana Madureira, cofundadora e diretora executiva da Raízes, destacou um paradoxo difícil de ignorar: “Estamos falando de secas prolongadas, de falta de água potável e até de fome na Amazônia. Isso em um território que, em teoria, é abundante em água. A crise climática já é rotina para quem vive aqui.”
É nesse contexto que o turismo — muitas vezes visto apenas como lazer — se revela também como ferramenta de regeneração, desde que pensado de forma responsável. Ela reforça: “O turismo tem contradições. Ele pode gerar impacto negativo, como o overtourism e a pegada de carbono, mas também pode ser profundamente transformador. O turismo sustentável valoriza saberes tradicionais, gera renda e fortalece a conservação.”
Quando o turismo respeita cultura e natureza, ele se torna estratégia de permanência no território, de autonomia e de justiça.
Isso é importante porque a crise climática não atinge todas as populações da mesma forma. E isso é um fato. Já falamos algumas vezes por aqui sobre justiça climática. E durante o bate-papo Turismo e Clima: Caminhos Sustentáveis na Amazônia, realizada na Casa Brasil ao longo da COP, uma realidade se impôs: quem menos contribui para a crise climática é quem mais sofre com ela.
Isso se expressa em várias frentes:
- perdas de produção de açaí, cacau e pesca devido às secas e ao calor extremo;
- insegurança alimentar em comunidades afastadas;
- impactos diretos em pequenos negócios que dependem dos ciclos naturais;
- dificuldade de manter jovens no território.
É sob os efeitos desse contexto que o fortalecimento local, governança e visibilidade se tornam respostas essenciais. Fortalecer empreendedores significa ampliar autonomia, melhorar organização, profissionalizar serviços e criar alternativas de renda capazes de resistir a períodos de instabilidade climática. A governança — com acordos coletivos, protocolos comunitários e decisões compartilhadas — ajuda a estruturar o turismo e o território, garantindo que benefícios e responsabilidades circulem entre todos.
2 – Turismo de base comunitária: a reconexão que pode fazer repensar os caminhos
Belém se tornou uma vitrine viva da sociobiodiversidade amazônica durante a COP. Estar ali, convivendo com povos originários, ribeirinhos e extrativistas, evidenciou algo que Mariana sintetizou no Roadshow of local initiative as solutions on climate action in tourism do Ministério do Turismo, com precisão: “A COP na Amazônia nos ajuda a enxergar outras formas de viver. Existem saberes ancestrais que são ciência. E estar aqui, convivendo com os povos originários e comunidades tradicionais, nos faz entender que talvez a vida nas cidades esteja um pouco distorcida — que a forma natural é essa, integrada.”
O turismo de base comunitária opera nessa mesma lógica: aproximar pessoas da floresta de maneira sensível e respeitosa, permitindo experiências reais, e não apenas observações distantes. Essa reconexão traz à tona uma dimensão profunda. “A gente vive uma crise climática, mas também uma crise ética. Enquanto tudo for sobre dinheiro, vamos continuar agravando desigualdades e destruição ambiental”, refletiu Mariana. Ver a natureza pelos olhos de quem a considera sagrada e não recurso, faz repensar a relação com ela.
O exemplo da Rota Combú, iniciativa do Sebrae Nacional, em parceria com o Sebrae Pará tendo como parceira executora a Raízes, mostra isso na prática. Empreendedores locais estão encontrando no turismo uma alternativa para manter a floresta em pé. Como Charles, um dos empreendedores locais, que antes cortava árvores e hoje vive da produção de açaí e do atendimento direto aos visitantes, “ele [o empreendedor] já não corta mais árvores para sobreviver e nem sequer precisa mais vender seu açaí na feira. O turista consome tudo ali mesmo com o valor agregado da experiência. Isso muda vidas e muda a lógica da economia local.”
O turismo nesse contexto exerce um soft power ou um poder suave. Ao invés de confrontos, acreditamos que a força das pequenas mudanças, das micro revoluções sutis, são capazes de, somadas, mover grandes estruturas.
No painel O Futuro do Turismo e a Importância dos Atores Locais, Jussara Rocha destacou como a presença das comunidades em todas as etapas dos processos transforma não só o turismo, mas também o sentimento de pertencimento e autonomia nos territórios. Ela usou a experiência da Rota do Combú como exemplo vivo dessa construção coletiva:
“Estar aqui apresentando a Rota do Combú é mostrar uma iniciativa que nasceu totalmente das mãos dos empreendedores da ilha — com participação, legitimidade e opinião deles em cada decisão. Quando a comunidade constrói junto, assume a governança, entende o processo e se reconhece nele, o produto passa a ser deles também.”
Jussara também reforçou como essa lógica se conecta a outras experiências na região, lembrando a fala de Adriana Lima, coordenadora do Movimento Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB), presente no painel. A partir do trabalho na ilha de Cotijuba, Adriana mostrou que, quando o turismo de base comunitária é liderado pelos moradores, os benefícios se espalham para toda a ilha: da produção de alimentos ao artesanato, passando por projetos sociais voltados à juventude e outras cadeias ativadas a partir da atividade turística.
3 – A bioeconomia é mais que “trend”, é levar recursos onde eles precisam chegar
Entre os debates, outro elemento ganhou destaque: o mundo está, finalmente, olhando para a bioeconomia, um mod
elo de produção baseado no uso de recursos biológicos que tem como objetivo oferecer soluções sustentáveis dos sistemas de produção.
Há interesse, investimento e desejo de compreender como negócios sustentáveis podem crescer enraizados na floresta. Essa virada de atenção abre portas para novas estéticas, novos consumos e novas narrativas. “O que antes era visto como periférico agora está indo para o centro. É sobre orgulho, sobre visibilidade, sobre narrativas que se afirmam”, disse Mariana.
Artesanatos indígenas, cosméticos amazônicos, alimentos nativos e práticas tradicionais estão ganhando visibilidade, não como tendências passageiras, mas como afirmações políticas e identitárias. Para que esse movimento seja justo, é preciso articulação entre empreendedores, comunicadores, governos e consumidores. Não se trata apenas de mercado, é sobre relação, cuidado e valorização.
A visibilidade completa esse processo ao conectar as comunidades com o mundo. Quando histórias, produtos e experiências ganham alcance, surgem mais oportunidades de negócio, reconhecimento e circulação de renda.
Fortalecer as pessoas é fundamental! “Conservação precisa de gente. As pessoas que vivem ali são as guardiãs da floresta”, pondera Mariana.
A Conferência deixou claro que não existe enfrentamento à crise climática sem ouvir e fortalecer quem vive na Amazônia. A floresta não é cenário. É sujeito. É presente e é futuro.
Saímos da COP30 com a certeza de que o caminho é coletivo, tecido por pequenas e grandes ações que transformam a relação do mundo com pessoas, o meio ambiente e a natureza, sobretudo com a Amazônia. E seguimos, como sempre, ao lado das comunidades e profissionais que fazem deste território um lugar de potência.
















