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Cultura indígena e turismo: como funciona a prática de visitar povos e populações tradicionais

“Sem território não tem cultura indígena. Território é cultura, é natureza, é alma, é ancestralidade”, Nadson Nei

Cultura indígena e turismo podem caminhar juntos em prol de manter os costumes e tradições dos povos originários, gerar renda, conservar o meio ambiente, movimentar a economia e desenvolver o país. Essa prática é chamada etnoturismo e, no Brasil, está diretamente ligada aos aos povos indígenas tradicionais. Esta atividade é fonte de renda para diversas aldeias, mas pode impactar diretamente na vida dos povos visitados, por isso deve ser estratégica e cuidadosamente planejada.

De acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e informações do site do Ministério do Turismo, “as comunidades indígenas têm autonomia para explorar projetos de turismo em seus territórios, cabendo ao poder público o papel de monitorar e fiscalizar as atividades nas aldeias”. As visitações são agendadas com os próprios representantes das comunidades ou agências de turismo autorizadas por eles.

 

E o que os indígenas pensam sobre a prática?

Enoque Raposo conta que foi muito difícil na aldeia deles absorver o que significa turismo, já que essa palavra não existe em macuxi, a língua que falam lá. Ele precisou explicar que era uma troca, uma experiência. Os índios acharam esquisito e no início ficaram tímidos, mas começaram a se divertir com a curiosidade dos estrangeiros e também ter curiosidade por eles e perceber os benefícios, por exemplo, no aumento das vendas das panelas de barro da comunidade.

A Aldeia Raposo do Sol foi a terceira a ter Plano de Visitação Turística desenvolvida pela Funai em parceria com universidades locais, consultorias e o DETUR de Roraima. Enoque, é graduado em Secretariado Executivo, Chefe de Ecoturismo do Detur Roraima e liderança indígena Raposa. Como líder indígena e funcionário público, foi uma das lideranças na condução desse processo.

Ele participou da mesa redonda “Direitos Indígenas de povos e populações tradicionais: políticas públicas e turismo”, promovida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) na última quinta-feira, 22. O encontro faz parte de uma série de bate-papos chamada “Diálogos Sustentáveis”.

 

De Norte a Sul do país

Enoque, de Roraima, Amazônia, dividiu a fala com outros três convidados durante o diálogo: um do contexto do sudeste, o Dilmar da Maracanã (Rio de Janeiro), uma representante do nordeste (Porto seguro, Bahia).

Nitynawa é filha de uma sobrevivente do massacre indígena de 1951 na Bahia. Ela também sobreviveu aos mais duros ataques e preconceitos para conseguir, depois de adulta e com filhos, aprender a ler e escrever. CONQUISTA. Foi na segunda tentativa, na segunda cidade, percorrendo 12km de chinelos de dedo com um caderno em sacola plástica. Hoje, ela é autora do livro As guerreiras na história pataxó e uma das lideranças do Instituto Pataxó de Etnoturismo da Aldeia Jaqueira em Porto Seguro.

Dilmar fez uma fala forte. Pediu desculpas de antemão. Disse que os parentes do norte como Enoque e Nadson ainda tiveram um certo privilégio de estarem sendo confrontados só agora mais recentemente. As etnias do sudeste, como é o caso das pluriétnicas que compõe a aldeia Maracanã no Rio, vêm sendo dizimadas desde 1.500, sem pausa. E, segundo Dilmar, apesar de ser linda a campanha de celebridades pela “demarcação já”, não dá para esperar que os governos colonizadores que desrespeitam a cultura indígena há 500 anos mudem de postura agora. Ele defende a autodemarcação. “Nós ocupamos as nossas terras e fomos retirados. Voltamos. Se for pra morrer, a gente morre. É isso que acontece desde 1.500. Não existe índio sem terra”, disse.

 

Os mediadores da conversa foram Marta Irving e Nadson Nei, professora titular e indígena doutorando do Programa de Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social da UFRJ. Nadson Nei ressaltou que a demarcação não dá propriedade aos indígenas, mas direito de uso das terras, o que eles fazem conservando-as, já que dependem dos recursos naturais para viver bem e estabelecem outro tipo de relação com eles. Há uma perda irreparável em se deslocar populações por qualquer motivo que seja.

Durante as perguntas abertas ao público que assistia à mesa redonda, Elizabeth Oliveira, jornalista e pesquisadora do Gapis, lembrou que na Rio 92 havia uma grande polêmica, e houve uma carta do então presidente Fernando Collor para o presidente das organizações Globo Roberto Marinho sobre a demarcação de terras Guaranis. Parte da população brasileira era contra e parte favorável. Beth perguntou aos representantes indígenas como eles viam essa questão se reacender hoje, quase trinta anos depois, quando parecia que caminhávamos para um consenso de respeito aos direitos indígenas e que há um coro forte a favor da suspensão dos mesmos.

Nesse sentido, eles reforçaram a importância de eventos como foi essa edição do “Diálogos Sustentáveis” e agradeceram a Universidade e os organizadores pelo espaço, pois o que falta hoje são lugares em que essas importantes falas sejam ouvidas e ecoem.