
Tenho pensado muito sobre comunicação. Talvez porque, de alguma forma, ela sempre tenha sido o meu jeito de estar no mundo, antes de virar qualquer uma dessas palavras que a gente usa para tentar organizar aquilo que, muitas vezes, começa de maneira mais intuitiva. Não por acaso, quando criei a Lunga, a frase que veio para traduzir a nossa existência foi: a nossa natureza é ouvir e manifestar em palavras.
Na época, ela já fazia muito sentido para mim, mas hoje, especialmente a partir da pós-graduação em Escritas Performáticas que tenho feito na PUC-Rio, essa frase parece ganhar outras camadas, porque venho reafirmando que a comunicação não está apenas no texto escrito, no post publicado, no relatório entregue ou na notícia que vai para o site. A comunicação está em tudo! Ela se manifesta em palavras, sim, mas também em gestos, ritmos, silêncios, desenhos, danças, músicas, modos de fazer, modos de receber, modos de contar e de lembrar.
Comunicação para além das palavras
Essa percepção parece simples, mas muda muita coisa quando a gente realmente se permite olhar para ela. Porque, se as letras também são símbolos que aprendemos a interpretar, por que outras formas de expressão não poderiam ser compreendidas como escrita?
Um gesto também pode escrever. Uma música também pode narrar. Um corpo em movimento também pode contar uma história. Um desenho feito na terra também pode ser linguagem. Penso, por exemplo, na Conceição Evaristo, quando ela fala da mãe desenhando no chão de terra, como quem escreve com aquilo que tem, com aquilo que sabe, com aquilo que carrega.
Essa imagem me atravessa justamente porque ela desloca a ideia de escrita daquele lugar eurocêntrico, colonizador, “mais oficial, mais escolarizado, mais legitimado”, para nós aqui do ocidente. E lembra que há muitas formas de registrar o mundo, de comunicar existência e de dizer “eu estive aqui”, “eu aprendi assim”, “foi assim que me ensinaram”, “é assim que seguimos”. Isso passa um pouco pelos aprendizados da obra “A Terra Dá, a Terra Quer”, que foi uma das nossas leituras aqui no clube do livro.
E talvez seja por isso que esse tema tenha se aproximado tanto da minha relação com a Raízes. Porque comunicar um negócio social como a Raízes nunca foi, para mim, apenas contar o que foi feito. Claro que existe esse lugar também, e ele é importante. É preciso falar dos projetos, dos resultados, das metodologias, dos territórios, dos aprendizados, dos dados, dos caminhos percorridos. Mas, quando olho para esses quase 11 anos acompanhando a comunicação da Raízes, em uma empresa que em 2026 completa 20 anos de história, percebo que a comunicação está presente em muito mais lugares do que aqueles que normalmente recebem esse nome. Ela está na interpretação de uma dor trazida por um cliente, no cuidado de não transformar uma solução em algo imposto, no diálogo com comunidades, na mediação entre expectativas de diferentes stakeholders, na forma como um relatório organiza o que aconteceu em campo, na responsabilidade de citar fontes nos textos que vão para o site, na escolha de uma palavra no lugar de outra, na tentativa constante de traduzir complexidade sem simplificar demais a vida.
Comunicação responsável começa pela escuta
Quando a gente fala de comunicação de uma maneira mais clássica, é comum lembrar daquela ideia de emissor, receptor, mensagem, canal, código, contexto e ruído. Alguém fala, alguém recebe, alguma coisa é transmitida. Mas, na prática, especialmente no trabalho da Raízes, esse caminho nunca é tão reto assim.
O cliente chega com uma questão, uma necessidade, um problema que precisa ser olhado. Muitas vezes, há uma dor muito concreta ali: como desenvolver determinado território, como estruturar um projeto socioambiental, como fortalecer uma cadeia produtiva, como gerar renda, como apoiar comunidades, como construir impacto positivo com responsabilidade. Mas a resposta não nasce apenas da escuta desse cliente. Ela precisa passar por outras escutas, por outras camadas e formas de compreensão. Existe uma relação sendo construída — e relação nenhuma se sustenta sem comunicação.
Quando falamos de comunidades tradicionais, comunidades locais ou grupos historicamente pouco escutados nos processos de desenvolvimento, isso fica ainda mais evidente, porque não se trata apenas de levar informação, apresentar uma metodologia ou organizar uma fala institucional. É reconhecer que aquele território já comunica antes da chegada de qualquer projeto. Comunica pela paisagem, pela comida, pela festa, pela oralidade, pelo artesanato, pelo jeito de ocupar o espaço, pelas memórias que circulam, pelas ausências também. Há muita coisa sendo dita ali, mesmo quando não aparece em um documento formal, em uma planilha ou em um indicador.
E talvez uma das responsabilidades mais bonitas e mais difíceis da comunicação seja justamente essa: não apagar essas linguagens em nome de uma narrativa mais fácil de vender, mais simples de explicar ou mais confortável para quem está de fora. Inclusive, falamos sobre isso na nossa última imersão, que é um momento de encontro coletivo da equipe, uma vez que estamos em diferentes lugares do Brasil. Discutimos sobre a linha tênue entre nos adaptar completamente ao mercado e ao capital e correr o risco de perder nossa essência, ou também usar termos que são compreensíveis somente entre um nicho muito específico. Como quase tudo na vida, ficamos com o ideal: o equilíbrio, o meio. Não à toa a Raízes é um negócio social, o nem tão famoso setor 2,5, que não está completamente lá, nem totalmente cá.
A Raízes tem o desenvolvimento sustentável no próprio nome, e isso também me faz pensar no quanto a comunicação é parte dessa construção, uma vez que passa pelo modo como compreende um cliente, escuta e dialoga com uma comunidade, pelo modo que apresenta uma proposta, registra um aprendizado, compartilha conhecimento e pelo modo como se decide o que deve ou não ganhar visibilidade.
Onde a comunicação encontra o turismo responsável
Essa reflexão também se aproxima muito do campo do turismo responsável, que atravessa a história da Raízes e também a minha própria atuação, inclusive pela participação da Raízes e da Lunga no Coletivo MUDA. Se defendemos um turismo que respeita territórios, comunidades, culturas, modos de vida e relações mais equilibradas entre quem visita e quem recebe, também precisamos defender uma comunicação que esteja à altura disso. Não faz sentido falar de turismo responsável com uma comunicação irresponsável. Não faz sentido falar de desenvolvimento sustentável com uma narrativa que apaga contradições, que simplifica territórios ou que usa a diversidade apenas como recurso estético.
A comunicação, nesse caso, precisa caminhar junto com os valores que ela anuncia. Precisa ter compromisso com fontes, com contexto, com autoria, com escuta, com transparência e com a complexidade das histórias que ajuda a contar. E isso vale tanto para uma campanha quanto para um diagnóstico, tanto para um relatório quanto para uma legenda, tanto para uma reunião com cliente quanto para uma roda de conversa em campo.
Tudo comunica.
E se tudo comunica, a pergunta vai além de “o que queremos dizer?”, mas: “como queremos escutar?”, “quais sentidos queremos fortalecer?” e “que tipo de futuro estamos ajudando a escrever quando colocamos uma palavra depois da outra?”.

