
A regeneração no turismo, grande tema da WTM Latin America 2026, não pode ser tratada como tendência de mercado nem como nova etiqueta para práticas antigas… Ela exige mudanças profundas na forma como territórios são percebidos, planejados e vividos. Esse foi um dos principais consensos do painel “Turismo além da sustentabilidade: experiências em curso na América Latina para um Turismo Responsável”, realizado no Transformation Theatre, durante o evento, em São Paulo, com participação de Mariana Madureira, diretora executiva da Raízes Desenvolvimento Sustentável.
Ao lado de Camilo Alvarado, Diretor Nacional da Travolution Colombia, e Erika Ramirez, diretora da Tours Mitote, Mariana defendeu que a regeneração precisa considerar dimensões sociais e culturais, e não apenas ambientais: “A gente precisa regenerar nosso pensamento sobre o turismo, para daí regenerar as relações, regenerar a memória e regenerar a natureza.”
Houve críticas ao modelo de turismo massificado, que concentra renda, pressiona recursos naturais e afasta moradores dos benefícios econômicos. Em contraponto, defendemos um turismo de menor escala, mais distribuído, com permanência maior, relações mais próximas e impacto positivo mais equilibrado.
Segundo Mariana, ainda predomina uma lógica de consumo que transforma destinos em produtos e reduz territórios a cenários. Para mudar esse paradigma, é necessário recolocar a natureza no centro e compreender que seres humanos fazem parte dela. “Enquanto a gente tiver essa relação tão distorcida, não vamos conseguir encontrar equilíbrio”, disse.
Escuta territorial como ponto de partida
Outro tema central do debate foi a importância da escuta ativa junto às populações locais. As pessoas participantes reforçaram que ninguém conhece verdadeiramente um território melhor do que quem vive nele diariamente. “Ninguém sabe qual é a cor do território, senão as pessoas que vivem nele”, observou Camilo.
A fala reforça um princípio historicamente defendido pela Raízes: projetos de turismo responsável só geram impacto positivo quando nascem do diálogo com comunidades, respeitando tempos, memórias, vocações locais e formas próprias de organização social. Em vez de buscar soluções grandiosas e distantes da realidade local, é mais estratégico fortalecer iniciativas comunitárias, redes produtivas existentes, empreendedorismo local e experiências conectadas à identidade cultural de cada região.
Os representantes latino-americanos destacam que muitos projetos ainda nascem de forma superficial, sem escuta qualificada e sem diálogo com comunidades locais. Quando isso acontece, surgem conflitos, uso inadequado de recursos e iniciativas que não se sustentam no longo prazo. Por isso, defendem que qualquer proposta ligada ao turismo precisa considerar a complexidade dos territórios, seus limites e suas potencialidades.
Por isso mesmo, Mariana, Camilo e Erika também chamaram atenção para a necessidade de envolver as empresas privadas nesse processo, desde que dispostas a rever práticas e aprender com organizações comunitárias. “Nós, comunidades, temos muito a ensinar ao setor privado”, enfatizou Erika.
O painel destacou que modelos baseados apenas em investimento externo, metas rápidas ou dependência financeira tendem a fracassar no longo prazo. Em contrapartida, iniciativas construídas com autonomia local, criatividade e cooperação têm maior potencial transformador.
América Latina como inspiração para um novo turismo
Ao longo da conversa, Mariana ressaltou que a diversidade cultural, os vínculos comunitários e os históricos de resistência da América Latina podem inspirar novos caminhos para o setor turístico global. “A gente precisa mostrar para o mundo um novo turismo, sob uma nova perspectiva. Um turismo que regenere relações e territórios de um lugar profundo, e não do greenwashing”, falou.
Para a Raízes, participar de espaços como a WTM Latin America reforça a importância de ampliar conexões entre iniciativas comprometidas com desenvolvimento territorial, justiça climática e turismo responsável em escala regional e global, neste caso, na América Latina.
Além das ações na própria feira, participamos da Assembleia Geral do Coletivo MUDA! pelo Turismo Responsável, do qual fazemos parte, na segunda-feira (13), no nosso escritório na capital paulista. São sempre momentos de encontrar pessoas profissionais que admiramos e que também se tornaram amigas e parceiras ao longo dos anos.
Por fim: o turismo do futuro não será medido apenas pelo número de visitantes, mas pelo impacto positivo que deixa em quem vive no território!
