
Quando se fala em conservação da natureza no Brasil, muitas vezes as unidades de conservação aparecem como pano de fundo. Estão ali, sustentando paisagens, protegendo florestas, rios, montanhas, cavernas, restingas, manguezais, espécies ameaçadas, modos de vida e memórias de territórios inteiros. Mas nem sempre ocupam o centro da conversa. E talvez precisem ocupar.
As unidades de conservação, conhecidas também como UCs, são áreas legalmente protegidas pelo poder público ou, em alguns casos, por proprietários privados, criadas para conservar a natureza e organizar seus usos.
No Brasil, elas fazem parte de um sistema próprio: o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, o SNUC, instituído pela Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. É essa lei que estabelece critérios para criação, implantação e gestão das UCs e organiza essas áreas em dois grandes grupos: as unidades de Proteção Integral, voltadas à preservação da natureza com uso indireto dos recursos naturais, e as unidades de Uso Sustentável, que buscam compatibilizar conservação com o uso sustentável de parte desses recursos.
Nem toda Unidade de Conservação funciona do mesmo jeito
Um Parque Nacional, uma Reserva Extrativista, uma Área de Proteção Ambiental, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural ou uma Estação Ecológica têm objetivos, regras, possibilidades de visitação e formas de gestão diferentes. O que aproxima todas elas é a ideia de que certos territórios precisam de cuidado continuado, planejamento e proteção para que continuem existindo com suas funções ecológicas, culturais, sociais e econômicas.
O Brasil tem motivos para reconhecer a força do seu sistema. Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, desde a criação do SNUC, a área total de unidades de conservação no país aumentou 244,8%. Em 2000, eram 754 mil km² protegidos; em 2025, o número de unidades cadastradas havia mais que triplicado, passando de 1.053 para 3.185. A maior parte da área protegida está em unidades federais, mas estados, municípios e RPPNs também compõem esse desenho, mostrando que a conservação brasileira depende de muitas escalas de gestão.
Mas nenhum sistema, por mais avançado que seja na lei, se sustenta sozinho na realidade. E a realidade brasileira é grande, diversa e complexa.
Conservar no Brasil significa lidar com dimensões continentais, biomas muito diferentes entre si, pressões econômicas, conflitos de uso, mudanças climáticas, desigualdades históricas, territórios tradicionais, falta de estrutura, necessidade de fiscalização, visitação crescente e, muitas vezes, equipes reduzidas para responsabilidades imensas. A gestão das UCs envolve órgãos federais, estaduais e municipais, conselhos gestores, planos de manejo, monitoramento e participação social. O próprio Ministério do Meio Ambiente aponta o plano de manejo como um dos principais instrumentos para orientar o uso de cada unidade e de seu entorno, além de recomendar sistemas de monitoramento da efetividade de gestão.
É nesse ponto que o turismo entra: como uma possibilidade concreta de aproximar sociedade e conservação, gerar renda, fortalecer negócios locais, apoiar o uso público planejado, ampliar a educação ambiental e criar vínculos mais responsáveis entre visitantes, comunidades e áreas protegidas.
Turismo, conservação e desenvolvimento territorial
Os dados mais recentes ajudam a dimensionar esse potencial. Em 2025, 175 unidades de conservação federais monitoradas pelo ICMBio somaram 28,5 milhões de visitas, um recorde histórico desde o início do monitoramento, em 2000. O estudo “Contribuições do Turismo em Unidades de Conservação para a Economia Brasileira” também estimou que a visitação em UCs federais gerou R$ 40,7 bilhões em vendas, R$ 20,3 bilhões de contribuição ao PIB e R$ 9,8 bilhões em renda para famílias. Ao mesmo tempo, o próprio levantamento reforça que o crescimento da visitação traz desafios: é preciso equilibrar uso público e conservação, investir em infraestrutura, ordenar fluxos, fortalecer a educação ambiental e monitorar impactos.
Na Raízes, essa relação entre turismo, conservação e desenvolvimento territorial não é uma ideia abstrata. Ela aparece em projetos, parcerias e metodologias que olham para as unidades de conservação como parte de uma paisagem viva, onde natureza, economia local, cultura, governança e pertencimento caminham juntos.
- No Sul da Bahia, por exemplo, a Raízes atuou em parceria com a Conservação Internacional e a WWF-Brasil no Programa Turismo + Sustentável, no território de Abrolhos Terra e Mar. A região reúne ambientes marinhos, costeiros e terrestres, comunidades pesqueiras e indígenas, forte atividade turística e uma paisagem marcada pela presença de áreas protegidas. A iniciativa teve entre suas entregas mentorias para negócios locais e como resultado o fortalecimento das unidades de conservação do território e também de uma rede de turismo sustentável com o incentivo à participação dos empreendimentos na FUTURI, a Aliança pelo Turismo Regenerativo construída no território.
- Em Minas Gerais, a Raízes também participou da modelagem da PPP da Rota das Grutas de Peter Lund, roteiro turístico que envolve três unidades de conservação: o Parque Estadual do Sumidouro, onde está a Gruta da Lapinha; o Monumento Natural Estadual Gruta Rei do Mato; e o Monumento Natural Peter Lund, onde está a Gruta do Maquiné. O projeto buscava pensar como tornar a preservação mais efetiva e transformar o uso público em uma ferramenta de conhecimento e cuidado com os parques brasileiros. A atuação da Raízes envolveu consultoria em governança e atividade turística, além do gerenciamento da equipe de consultores, monitoramento de entregas e articulação de reuniões.
- No Espírito Santo, a parceria com a Greentec tem aproximado a Raízes de processos fundamentais para a gestão de unidades de conservação: os Planos de Manejo e, dentro deles, a estruturação do uso público. Esse é um campo especialmente importante porque define, com base técnica e escuta, como as pessoas podem acessar, vivenciar e se relacionar com esses territórios sem comprometer os objetivos de conservação. Quando bem planejado, o uso público não é apenas visitação. É interpretação ambiental, educação, segurança, distribuição de benefícios, valorização da cultura local e fortalecimento do território.
- Mais recentemente, a Raízes também tem atuado em parceria com a plataforma eTrilhas, da Rede Brasileira de Trilhas, empresa especializada em turismo de natureza, estruturação de trilhas, destinos e atrativos naturais. Nossa contribuição tem sido em aulas sobre Turismo Responsável e Empreendedorismo em Unidades de Conservação estaduais do Rio de Janeiro.
- Essa visão também se conecta à atuação da Raízes no Coletivo MUDA!, que recentemente foi convidado pelo Instituto Semeia a assinar, junto a outras organizações, a carta manifesto “Turismo de Natureza no Brasil: Conservação, Desenvolvimento e Orgulho Nacional”. A iniciativa reforça a necessidade de transformar o turismo de natureza em uma agenda estratégica para o país, reconhecendo o papel dos parques e das áreas protegidas na conservação ambiental, na geração de trabalho e renda e na valorização cultural.
Essas experiências mostram algo que, para a Raízes, é central: conservar não é isolar o território da vida, é cuidar das relações que tornam a conservação possível.
Unidades de conservação precisam de legislação, fiscalização e instrumentos técnicos, sim. Mas também precisam de comunidades fortalecidas, negócios locais mais preparados, visitantes mais conscientes, gestores apoiados, redes articuladas e projetos capazes de transformar presença em responsabilidade. O turismo, quando nasce da escuta e respeita os limites de cada lugar, pode ajudar nessa travessia.

