
Em quatro distritos de Minas Gerais, saberes ligados à gastronomia, ao turismo, à memória e aos modos de fazer locais estão no centro de um. A Raízes Desenvolvimento Sustentável está atuando em parceria com a UNESCO (sigla em inglês para Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) no âmbito do projeto “Construção da Paz e do Diálogo para o Desenvolvimento Sustentável dos Territórios do Alto Rio Doce”, cooperação com a Samarco. Uma iniciativa que reúne comunidades, associações e grupos locais em um processo de reconhecimento, fortalecimento e troca de boas práticas.
A atuação tem como foco principal iniciativas conduzidas por mulheres. Em três desses territórios, o trabalho está relacionado à gastronomia e à realização de feiras gastronômicas; em outro, o eixo principal é o turismo, com a estruturação de um roteiro turístico conectado à identidade e às potências do lugar.
Salvaguarda cultural, território e futuro
Registrar práticas culturais é a proposta do projeto, além de contribuir para que esses saberes sigam vivos, fortalecidos e conectados às possibilidades de geração de renda e desenvolvimento local. Nesse processo, a Raízes apoia a construção metodológica das ações, o levantamento e a sistematização de boas práticas. Além disso, temos estruturado a organização de intercâmbios entre os grupos participantes e a elaboração de um plano de futuro para os territórios envolvidos.
A experiência também dialoga diretamente com uma forma de atuação que acompanha a história da Raízes: estar junto das pessoas beneficiárias, escutar quem faz, reconhecer o que já existe e contribuir para que as soluções sejam construídas de maneira coletiva. E o mais importante: respeitando as singularidades de cada comunidade.
Catas Altas: memória, práticas coletivas e plano de futuro em Morro d’Água Quente
Em Morro d’Água Quente, distrito de Catas Altas, o projeto trabalha a partir de uma experiência comunitária já existente e reconhecida no território, a Sabores do Morro – uma antiga conhecida da Raízes sobre a qual falaremos mais em post exclusivo sobre este reencontro!
A atuação envolve a sistematização de práticas desenvolvidas ao longo dos anos pela Sabores, com o objetivo de organizar aprendizados, metodologias, formas de gestão e referências que possam inspirar outros grupos participantes do projeto.
Além dessa etapa de sistematização, o trabalho também prevê momentos de escuta e cocriação voltados à construção de um plano de futuro para o grupo, reunindo diretrizes organizacionais, produtivas e de gestão. A ideia é que a experiência acumulada pelo território seja tratada como memória e conhecimento vivo, capaz de orientar novos passos e fortalecer a governança comunitária.
Mariana: culinária identitária e economia criativa em Paracatu de Baixo
Em Paracatu de Baixo, subdistrito de Mariana, a atuação tem como eixo os saberes relacionados à culinária local. O trabalho envolve um ciclo formativo com aulas, diálogos e momentos de escuta sobre receitas, ingredientes, memórias familiares e práticas alimentares que fazem parte da identidade do território. A proposta é aproximar a capacitação técnica da dimensão afetiva e simbólica da comida, reconhecendo a culinária como referência cultural e também como possibilidade de geração de renda.
Ao longo do processo, serão mapeadas tradições culinárias e produzidos registros que irão compor um Caderno de Receitas construído com as participantes. Mais do que um produto final, esse material representa uma forma de valorizar histórias, modos de fazer e conhecimentos transmitidos entre gerações, ao mesmo tempo em que abre caminhos para que esses saberes dialoguem com iniciativas de economia criativa, festivais gastronômicos e outras oportunidades locais.
Ouro Preto: feira comunitária e fortalecimento de associações em Antônio Pereira
Em Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto, a atuação está voltada à mobilização, escuta e cocriação de uma feira comunitária. O processo envolve o mapeamento de associações, produtos e serviços locais, além de encontros para definição coletiva do conceito da feira, planejamento operacional, construção de identidade e pactuação de papéis entre os grupos envolvidos.
A feira é pensada como espaço de comercialização e instrumento de fortalecimento comunitário. Ao reunir diferentes associações e iniciativas do território, o projeto busca apoiar a organização de uma experiência piloto que valorize a produção local, estimule vínculos de colaboração e deixe aprendizados para a continuidade da ação depois do período de execução do projeto.
Santa Bárbara: turismo, governança e roteirização em Brumal
Em Brumal, distrito de Santa Bárbara, o eixo principal é o turismo. O trabalho parte da escuta junto a atores locais e do mapeamento de atrativos, empreendimentos e pontos de interesse do território, considerando critérios como atratividade para visitantes, operação ativa e potencial de integração em uma experiência turística mais organizada.
A partir desse diagnóstico, estão previstas ações de alinhamento coletivo, diálogo com o mercado, oficina participativa de roteirização comercial, comunicação turística com foco em vendas e construção das primeiras bases para uma governança futura compartilhada. O objetivo é contribuir para que Brumal avance de uma visitação ainda muito espontânea para uma proposta um pouco mais estruturada, conectada à identidade do território, às suas potências culturais e naturais e às possibilidades reais de comercialização responsável.
Salvaguardar é fortalecer quem faz
Para a Raízes, participar de um projeto como este é uma oportunidade de reafirmar a importância da cultura como dimensão viva do desenvolvimento sustentável. Quando uma receita, uma feira, um roteiro, uma associação ou um modo de fazer é valorizado, não se trata apenas de preservar uma tradição no passado, mas de reconhecer as pessoas que mantêm esses conhecimentos em movimento no presente.
Em um país marcado por uma enorme diversidade cultural, iniciativas assim têm papel estratégico para fortalecer comunidades e ampliar a visibilidade de seus saberes. Por essas e outras razões, estamos gratas em contribuir para que esses patrimônios continuem gerando pertencimento, autonomia e, com isso, futuro!
