TBC e soberania alimentar: Raízes participa de formação nacional sobre cultura e território

Tem conversa que acaba quando o horário termina, e tem conversa que continua porque ninguém quer sair dela. E foi mais ou menos isso que aconteceu durante o curso “Turismo de Base Comunitária, Cultura Alimentar e Economia do Território”, promovido pelo Pontão Territórios Rurais e Cultura Alimentar e pela Rede de Pontos de Cultura e Memória Rurais, com apoio do Ministério da Cultura, e que contou com a participação da Raízes nos encontros realizados em abril.

Representando o nosso negócio social, Jussara Rocha e Lucila Egydio conduziram aulas sobre hospitalidade territorial, soberania e segurança alimentar, além dos bastidores da gestão no turismo de base comunitária. Mas o que aconteceu ali foi maior do que uma troca técnica. Em muitos momentos, parecia mais uma roda atravessada por memórias, experiências e inquietações comuns entre pessoas de diferentes territórios do Brasil que seguem tentando proteger aquilo que ainda mantém identidade, sabor e pertencimento.

Alimentação como memória coletiva

Na fala de Jussara, a alimentação apareceu como algo muito maior do que um componente da experiência turística… Apareceu como linguagem cultural, como memória coletiva e como forma de um território se apresentar ao mundo sem precisar abrir mão de si mesmo para isso. Ao longo da aula, ela trouxe exemplos de diferentes regiões do Brasil para discutir como a comida comunica identidade e como a hospitalidade territorial também mora no prato, nos ingredientes, nos modos de preparo e nas histórias que acompanham cada refeição.

“A comida tem esse poder de falar quem somos nós”, comentou Jussara durante a formação, ao refletir sobre como a identidade gastronômica impacta a experiência de quem visita um território. Segundo ela, quando a alimentação mantém sua essência e permanece conectada à cultura local, ela fortalece o bem receber e cria uma sensação de pertencimento que o visitante leva consigo muito depois da viagem terminar.

A aula acabou abrindo um debate intenso entre os participantes, que trouxeram perguntas, exemplos e reflexões sobre descaracterização alimentar, preservação das tradições gastronômicas e os desafios de manter viva a identidade cultural diante das pressões do mercado turístico. “O módulo se estendeu além do horário previsto de tanto que o debate aconteceu de forma bastante solta, gostosa”, relembrou.

E a soberania alimentar?

Complementando a discussão, Lucila Egydio trouxe uma perspectiva mais voltada para soberania e segurança alimentar, e operação prática no turismo de base comunitária. Mas sem transformar a conversa em algo duro ou distante da realidade dos territórios. Pelo contrário, conectou conceitos técnicos ao cotidiano das comunidades, mostrando como alimentação, acolhimento, logística, organização e autonomia caminham juntos dentro de uma experiência bem estruturada.

Ela destacou a importância de olhar para o alimento não apenas como mercadoria, mas como direito, autonomia e expressão cultural. “A soberania tem mais a ver com a autonomia e o controle local dos produtores, olhando para o alimento como direito e não só como mercadoria”, explica.

Lucila também trouxe reflexões sobre cultivo, qualidade nutricional, manipulação adequada e responsabilidade no acolhimento dos visitantes. Depois, a conversa caminhou para os bastidores do turismo comunitário: hospedagem, reservas, ambientação, divisão de tarefas, organização de equipe, checklists e tudo aquilo que sustenta a experiência muito antes da chegada do visitante.

“Acho que eles tinham um pouco de sede de entender esse dia a dia, o que pesa, como se organiza, quais são os setores”, comentou sobre a recepção dos participantes.

Afeto e profundidade

Talvez tenha sido justamente essa mistura entre experiência prática, afeto e profundidade que fez as aulas reverberarem tanto entre quem participou. Para Maria Aparecida de Alcântara, uma das lideranças da iniciativa pela Rede Tucum, a presença da Raízes trouxe não apenas conhecimento técnico, mas uma metodologia construída a partir da caminhada real nos territórios. Em seu depoimento, ela destacou a capacidade de transformarem temas complexos em reflexões acessíveis, conectadas à realidade de quem vive e constrói o turismo comunitário no cotidiano.

Segundo ela, as aulas receberam muitos comentários positivos. “O Turismo de Base Comunitária transforma o alimento em patrimônio territorial. E elas mostraram esse modelo de turismo em territórios rurais a partir da experiência e da caminhada que já realizam. Foi uma troca muito potente”, completou.

No fim das contas, esperamos que o que tenha permanecido depois das aulas tenha sido justamente essa sensação de que discutir soberania alimentar dentro do turismo é também discutir o direito que os territórios têm de continuar sendo eles mesmos. De preservar seus sabores, seus modos de fazer, suas formas de acolher e suas relações com a terra.