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Autonomia feminina: o Dona do Meu Fluxo está mudando e queremos contar por quê

Há momentos em que um projeto precisa respirar fundo, olhar para a própria trajetória e reconhecer que cresceu. E estamos vivendo um desses momentos com o Dona do Meu Fluxo, que diz muito sobre autonomia feminina.

A iniciativa nasceu em 2017, quando a pobreza menstrual era ainda mais invisibilizada do que é hoje. Ao longo desses anos, percorremos periferias urbanas, territórios ribeirinhos, comunidades indígenas e diferentes contextos de vulnerabilidade, alcançando mais de 6,5 mil mulheres com a doação de coletores menstruais em parceria com a Korui. Foram ciclos de escuta, oficinas, experimentações e aprendizados contínuos.

Nesse percurso, vimos o debate público amadurecer. Acompanhamos avanços em políticas públicas que hoje garantem a distribuição de insumos menstruais. Fomos reconhecidas internacionalmente — inclusive como Gold Winner da WTM Latin America — por um modelo inovador que utilizou o volunturismo como ferramenta de mobilização e captação de recursos mínimos para sustentar um projeto sem fins lucrativos.

Sempre entendemos o Dona do Meu Fluxo como um laboratório vivo: um projeto experimental, aberto a ajustes, atento às transformações do contexto. O coletor menstrual continua sendo uma tecnologia potente: mais saudável, mais sustentável, com menor geração de resíduos. Mas, ao longo do tempo, fomos percebendo que falar apenas sobre fluxo menstrual já não era suficiente. Porque o que está em jogo nunca foi só o corpo biológico: é também o corpo social, a vida das mulheres como um todo.



Onde entra a autonomia

Hoje entendemos que ser dona do próprio fluxo envolve muito mais do que acesso a um insumo. Envolve autonomia. E fazemos questão de usar essa palavra com cuidado. Temos refletido sobre o termo “empoderamento feminino” e suas limitações. Autonomia nos parece mais precisa, porque é algo que se constrói gradualmente e com condições concretas para sua manutenção.

Uma mulher só pode ser verdadeiramente dona dos fluxos da sua vida se tiver capacidade de gerir suas próprias decisões, seu tempo, seus projetos e também seus recursos financeiros. Sabemos que muitas mulheres permanecem em relações abusivas, por exemplo, por dependência econômica. De acordo com o estudo “Independência financeira e violência contra as mulheres: uma análise documental de relatórios institucionais brasileiros“, desenvolvido pela doutoranda em psicologia clínica e cultura da Universidade de Brasília (UnB) Carolina Campos Afonso, servidora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) e publicado em 2025, 61% das mulheres afirmam que a dependência financeira impede a denúncia de agressões, e 52,2% das vítimas têm renda de até dois salários mínimos.

A violência patrimonial é uma realidade. O feminicídio cresce. A falta de autonomia financeira ainda aprisiona.

É por isso que estamos ampliando o escopo do Dona do Meu Fluxo.

Fluxos da vida, incluindo o financeiro

O fluxo menstrual continua fazendo parte do programa. Mas agora ele dialoga com planejamento de vida, organização financeira e autonomia econômica. Estamos reformulando as oficinas para integrar educação menstrual com educação para o fluxo financeiro, pois entendemos que esses temas se atravessam e se fortalecem mutuamente.

Essa nova fase está em construção! Em março, lançaremos uma oficina experimental que materializa esse próximo passo. E escolhemos tornar essa transição pública porque acreditamos na construção coletiva.

Se essa mudança conversa com você, se sua organização deseja somar, se você tem ideias, quer marcar uma reunião ou construir parceria, este é o momento!

Estamos abrindo esse processo para o mundo porque acreditamos que transformações estruturais se fazem em rede. O Dona do Meu Fluxo segue vivo e, agora, mais amplo.