
Ao longo dos anos trabalhando com impacto socioambiental na Raízes nos deparamos muitas e muitas vezes com a mesma pergunta: esse negócio tem viabilidade?
Às vezes ela surge de forma bem sistemática, como quando fizemos um estudo de vocação e viabilidade de um trem turístico no interior de São Paulo ou a revisão do Plano de Negócios do Yaripo Ecoturismo Yanomami. Na maior parte das vezes, contudo, o tema da viabilidade aparece como uma dor inerente e um questionamento sempre presente tanto dos empreendedores de pequenos negócios (nossos beneficiários) quanto da parte das grandes empresas que empreendem projetos (nossos clientes).
No fundo, a dúvida é sempre a mesma: vale a pena continuar investindo dinheiro e, principalmente, tempo e energia neste projeto ou negócio?
Essa é uma pergunta essencial. Nossos recursos são limitados e precisamos escolher com cuidado onde investir. Mas, para respondê-la, é preciso ir muito além do cálculo mais básico — a diferença entre receitas e despesas ou entre custos e benefícios esperados.
Antes de concluir se algo é ou não viável, vale revisitar as próprias bases da iniciativa. O valor entregue está realmente otimizado? Seria possível oferecer algo mais relevante para o público? Conhecemos de fato esse público ou estamos trabalhando com pressupostos? Existe um segmento potencial que ainda não enxergamos?
Mais do que avaliar a viabilidade do modelo atual, talvez seja mais interessante investigar a viabilidade do modelo potencial. Isso exige compreender o mercado, identificar oportunidades ainda não exploradas e reconhecer como mudanças na proposta podem transformar completamente o resultado esperado.
Além dos fatores tradicionais de demanda e oferta, há aspectos contextuais e relacionais que merecem atenção. Quem são os atores envolvidos no ecossistema do negócio ou projeto? Quais tendências econômicas, sociais, tecnológicas ou ambientais podem influenciar seu futuro? O contexto favorece expansão ou exige adaptação? Há barreiras regulatórias ou legais que precisam ser consideradas?
Essas perguntas ajudam a construir uma visão mais ampla e estratégica da viabilidade.
Por fim — e, na minha opinião, mais importante do que todos os aspectos técnicos — existe um fator tão simples quanto frequentemente negligenciado: a energia das lideranças ou dos proponentes.
Hoje fala-se muito em propósito, “brilho nos olhos” ou paixão. Prefiro chamar de energia: a disposição genuína para dedicar parte da própria vida à construção de um projeto. Sim, investir vida.
Projetos e negócios dependem de capital, conhecimento, planejamento e gestão. Mas também exigem algo impossível de mensurar em uma planilha: a capacidade de levantar da cama nos dias difíceis, insistir quando os resultados demoram a aparecer, aprender com os erros, adaptar rotas e continuar seguindo em frente.
Nenhum estudo de viabilidade estará completo se ignorar essa dimensão. Talvez uma das perguntas mais importantes seja justamente esta: quanto os proponentes estão verdadeiramente dispostos a investir de si mesmos?
Se você tem um projeto ou um negócio, vale a pena refletir sobre isso. Quanto você está investido nele?
