Como os métodos ágeis podem contribuir com o trabalho de um negócio social?

A pergunta que intitula esse texto acompanhou a leitura da 5ª edição do Clube do Livro da Raízes. Ao longo dos encontros, discutimos com atenção o que vivemos nos projetos e a maneira como nos organizamos, buscando entender como os métodos ágeis poderiam nos ajudar a trabalhar melhor.

Desde 2023, o clube reúne pessoas da comunidade Raízes para conversar sobre leituras escolhidas pelo grupo. Começamos com Ensinando Comunidade, de bell hooks, e depois discutimos Reinventando as Organizações, de Frederic Laloux. Também dedicamos encontros a A Queda do Céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, e a A Terra Dá, a Terra Quer, de Nego Bispo, com debates sobre os modos de vida nos territórios e nossa relação com os saberes de quem os habita. As leituras anteriores voltaram à conversa nesta edição, especialmente quando pensamos na autonomia das equipes e das comunidades com as quais atuamos.

Uma das contribuições mais valorizadas pelo grupo foi a compreensão de que a agilidade precisa fazer sentido para cada atividade. Processos administrativos recorrentes, por exemplo, têm exigências diferentes das de um projeto em construção, no qual precisamos experimentar uma proposta e acompanhar seus resultados para decidir como continuar. Essa distinção nos ajudou a olhar com mais critério para a adoção de métodos e para o que esperamos alcançar com eles.

Outra percepção rendeu boas conversas: a agilidade pode ser compreendida pela capacidade de aprender rapidamente com a experiência. 

A troca de ferramentas de gestão de tarefas na própria Raízes apareceu como exemplo desse aprendizado, em que o uso cotidiano permite avaliar o que funciona e reconhecer quando vale fazer uma mudança.

Para que isso aconteça, é preciso haver abertura para falar sobre dificuldades e rever decisões. Retomamos, então, uma discussão já presente na leitura de Reinventando as Organizações: a cultura de uma equipe se constrói na forma como as pessoas participam e são tratadas, inclusive quando algo dá errado.

A possibilidade de compartilhar melhor o trabalho foi outro aspecto que despertou nosso interesse. A colaboração pode diminuir a sobrecarga individual e permitir que o conhecimento permaneça disponível para a equipe, mesmo quando alguém se ausenta. Ao relacionar essa proposta à nossa realidade, ponderamos que uma equipe pequena, com funções especializadas, precisa de clareza sobre como distribuir as responsabilidades. A colaboração exige tempo e coordenação, especialmente para evitar que as pessoas mais requisitadas acabem acumulando ainda mais tarefas.

 

Agilidade no contexto de um negócio social

Os exemplos de grandes empresas apresentados no livro Ágil do Jeito Certo exigiram algumas ponderações do grupo. Na Raízes, trabalhamos com quem financia os projetos e com as pessoas que participam deles nos territórios, cujas necessidades podem ser diferentes das expectativas iniciais de quem nos contrata. Por isso, avaliar uma entrega envolve considerar o que ela representa para a comunidade.

Essa conversa nos levou ao assessment, processo em que nos dedicamos à escuta e à compreensão da realidade local para orientar o desenho de um projeto. Reconhecemos como essa prática ajuda a discutir propostas que chegam previamente definidas e a construir, junto às pessoas envolvidas, soluções mais adequadas ao contexto.

Também consideramos os limites impostos pelos prazos de aprovação e pelas exigências contratuais dos clientes. Uma equipe pode ter autonomia para organizar seu trabalho e, ainda assim, depender de decisões externas para avançar. Discutimos como levar essas condições em conta no planejamento, preparando o que for possível com antecedência e reduzindo o desgaste provocado pelas mudanças de ritmo.


O que vamos levar daqui?

A leitura sobre métodos ágeis teve ressalvas, especialmente pela distância entre parte dos exemplos corporativos e o cotidiano de um negócio social, mas ofereceu boas oportunidades de examinar nossas próprias práticas. Saímos das conversas com possibilidades concretas para discutir na equipe, como organizar melhor as reuniões e compartilhar aprendizados dos projetos. É uma das razões pelas quais seguimos nos reunindo para ler: a experiência de uma pessoa frequentemente ajuda outra a perceber algo que havia passado despercebido.

Você utiliza métodos ágeis no seu trabalho? Conte para nós como tem sido essa experiência.