Raízes retorna à Sabores do Morro: depois de uma década, é hora de multiplicar

Morro D`Água Quente, Minas Gerais, 2015. A Raízes esteve presente nos primeiros passos da construção coletiva da Sabores do Morro, apoiando o fortalecimento dos negócios e o associativismo comunitário. 

Mais de uma década depois de ajudarmos a realizar as primeiras feiras, voltamos a encontrar as pessoas empreendedoras que fizeram aquela iniciativa crescer num cenário completamente diferente: agora são elas que inspiram e têm apoiado outros grupos a construir seus caminhos em um projeto idealizado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e financiado pela Samarco. Isso é desenvolvimento.

Lá em 2015, nas cozinhas e nos quintais da comunidade já existiam produtos, receitas transmitidas entre gerações e muita vontade de empreender. Também havia um território com potencial para aproximar gastronomia, cultura e turismo. O ponto de partida foi olhar para tudo isso com atenção: reunir as pessoas, reconhecer o valor do que já faziam e imaginar, juntas, uma iniciativa que tivesse sentido para quem vivia ali.

A atuação da Raízes, realizada inicialmente em parceria com a Fundação Vale, envolveu o mapeamento dos produtores, qualificações técnicas e gerenciais, encontros de cocriação, ações de desenvolvimento humano, fortalecimento da marca e articulação com a cadeia produtiva do turismo. Os efeitos mais importantes, no entanto, apareciam no cotidiano, na autoestima dessas mulheres, nas trocas entre elas, no dinheiro que permanecia circulando na comunidade e na percepção de que o trabalho coletivo poderia fortalecer cada negócio.

Terminado o contrato da Raízes de 15 meses com muitos frutos e todos os objetivos alcançados, havia ainda novos desafios e desejos do grupo. A Raízes entrou como parceira do coletivo na realização do primeiro festival da Sabores do Morro.

Mal podíamos imaginar que 11 anos depois, elas contribuiriam ativamente com o projeto “Construção da Paz e do Diálogo para o Desenvolvimento Sustentável dos Territórios do Alto Rio Doce”. Mas não podemos negar que já enxergávamos o potencial, por isso reafirmamos nossa escolha em ter o grupo como inspiração.

 

Desenvolvimento que inspira para transformar

O coletivo chega como uma referência. Suas práticas, escolhas e formas de organização têm ajudado grupos de outros territórios a refletir sobre seus próprios caminhos. Sistematizar essa experiência significa organizar memórias, reconhecer decisões importantes e tornar visíveis os conhecimentos produzidos ao longo dos anos. Cada território, evidentemente, tem sua própria história, conflitos e vocações, por isso, a trajetória da Sabores do Morro está no valor das conversas e reflexões que ela pode ocasionar para gerar desenvolvimento. 

“Temos apoiado esse processo por meio do levantamento e da sistematização das práticas desenvolvidas pela associação, além da estruturação dos intercâmbios entre os territórios. A proposta é que grupos de localidades como Paracatu de Baixo, distrito de Mariana, e Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto, possam conhecer de perto a experiência da Sabores do Morro e, ao mesmo tempo, compartilhar seus próprios caminhos, desafios e aprendizados”, explica Jussara Rocha, diretora de projetos da Raízes.

A Associação pode compartilhar os acordos que ajudaram a sustentar o trabalho coletivo, os desafios enfrentados, as decisões tomadas e as condições que permitiram que o grupo continuasse ativo. Durante os intercâmbios, também escuta as experiências, dúvidas e conhecimentos trazidos pelas demais comunidades.

Depois dos intercâmbios, o trabalho segue para a elaboração de um plano de futuro e desenvolvimento. A intenção é fazer com que os encontros deixem referências e bases mais consistentes para os próximos passos de cada grupo participante.

 

Linha do tempo

Alguns momentos ajudam a contar como essa história foi ganhando forma:

  • 2015 | A origem: nasce a Feira Sabores do Morro, construída de maneira participativa com produtores e moradores de Morro d’Água Quente.
  • 2016 | O fortalecimento: a iniciativa recebe novos participantes, realiza outras edições, circula por eventos externos e amplia sua relação com a gastronomia, o turismo e a geração de renda.
  • 2017 | Novos passos: o grupo realiza o primeiro Festival Sabores do Morro, avança na formalização da Associação e cria iniciativas como a Rota dos Sabores e um calendário próprio de feiras.
  • 2019 | Autonomia em movimento: a Associação passa a conduzir suas ações com mais independência, organiza o Festival e fortalece sua comunicação, suas parcerias e sua presença no território.
  • 2025 | Dez anos de história: a Sabores do Morro celebra uma década marcada por geração de renda, associativismo, identidade, protagonismo feminino e permanência.
  • 2026 | Uma experiência que se multiplica: a trajetória começa a ser sistematizada e compartilhada com outros grupos, abrindo um novo capítulo para a Associação e para sua relação com a Raízes.

Veja aqui tudo o que já falamos sobre a Sabores do Morro no nosso site. 

 

A história da Sabores do Morro nos comprova que os efeitos de um projeto socioambiental podem ir muito além do previsto em um contrato. Eles continuam presentes quando as pessoas se apropriam dos processos, fortalecem relações e fazem nascer caminhos que já não dependem da presença constante de quem contribuiu com o começo.

Talvez seja isso que o tempo permita construir: uma história de desenvolvimento que continua crescendo e, enquanto cresce, abre espaço para que outras também possam começar.